
A corrida do ouro em torno da inteligência artificial (IA) ficou tão concentrada que passou a criar barganhas justamente nas empresas que estão fora dela. É essa a aposta da IP Capital Partners, uma das gestoras mais antigas do País, que está comprando ações deixadas para trás enquanto o dinheiro corre para as gigantes de tecnologia americanas. O mesmo raciocínio vale, na outra ponta, para a bolsa brasileira, que praticamente devolveu a forte alta do início do ano em uma venda generalizada. Para a gestora, esses dois exageros criam distorções de preço que viram oportunidade para quem está atento.
O exemplo mais claro é a Mastercard (MSCD34). A gigante de cartões e meios de pagamento cresce o lucro em 15% no ano, mas vê a ação cair mais de 10%, um descompasso pouco comum em um mercado tão bem precificado como o americano, no qual o preço costuma subir até antes de o lucro aparecer.
Para a IP, o tema da IA atrai tanto dinheiro para as gigantes de tecnologia e sua cadeia que bons negócios fora desse radar, como meios de pagamento, acabam esquecidos. Hoje a ação é negociada a 23 vezes o lucro, múltiplo parecido com o de momentos de crise, como a guerra na Ucrânia, e bem abaixo da média histórica de 30 a 35 vezes, segundo Rodolfo Marinho, sócio e diretor de operações da IP. Esse número, o múltiplo de preço sobre lucro, indica quantos anos de lucro o investidor paga ao comprar a ação, de modo que, quanto menor, mais barata ela tende a estar.
Aposta no exterior (com hedge)
As principais apostas saem do IP Participações, fundo da casa que é local, mas mantém forte exposição lá fora, em bolsas dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa. Hoje dois terços da carteira estão no exterior. Todas essas posições internacionais são protegidas da variação do dólar, uma trava que evita que o câmbio mexa no resultado e ainda permite ao fundo capturar a diferença entre os juros brasileiros e os de fora, hoje entre 8,5% e 9% ao ano.
O tamanho e a diversidade do mercado americano abrem espaço para encontrar oportunidade mesmo em momentos de euforia ou de estresse, explica Gabriel Raoni, sócio e gestor da IP. Ele compara os dois mercados, lembrando que, no Brasil, quando a bolsa sobe, sobe quase tudo junto, puxada pelo cenário macroeconômico.
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Já no mercado americano, mesmo com o índice S&P 500 nas máximas, há setores andando em direções opostas, com muitas empresas distantes dos semicondutores caindo 15% ou 20%. “Estamos vendo uma rotação setorial expressiva, influenciada também por um fluxo forte de fundos passivos, os ETF, muitos deles alavancados, com alguns setores entrando no radar enquanto os preços de outros setores vão minguando”, diz Raoni.
Mastercard e Microsoft, as gigantes esquecidas
A IP vem aumentando posições em Mastercard e Microsoft (MSFT34) ao longo de 2026, e Raoni as coloca entre os dez melhores negócios que já estudou, pela capacidade de crescer o lucro e gerar valor por muito tempo, algo que ele considera raro entre as empresas brasileiras.
No caso da Mastercard, esse histórico aparece no lucro por ação, que cresceu 18% ao ano na última década. A empresa forma com a Visa (VISA34) um duopólio mundial, com cerca de US$ 25 trilhões movimentados, tende a se beneficiar tanto da inflação global quanto do avanço da bancarização da população e tem grande capacidade de incorporar novas tecnologias, enquanto a rede já consolidada dificulta a entrada de concorrentes.
Já a Microsoft, antes vista como uma das vencedoras da IA, passou a ser tratada pelo mercado como uma empresa que perde vantagem competitiva, leitura da qual a IP discorda. O lucro por ação da companhia cresceu 21% ao ano na última década, ritmo ainda maior que o da Mastercard, e mesmo assim a ação é negociada a 19,5 vezes o lucro, patamar inferior ao do tombo da pandemia, em 2020, quando chegou a 20 vezes. Marinho lembra o caso do Google, também apontado como atrasado na corrida da IA no ano passado e que se recuperou com força em 2026.

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A preocupação do mercado é que a Microsoft estaria ficando para trás nas ferramentas de produtividade do Office 365 para empresas. Raoni considera o receio exagerado, já que a companhia costuma ser ágil em seguir tendências, copiar o que dá certo e embarcar as novidades nos aplicativos que já tem, apoiada em 450 milhões de assinaturas do pacote. Para ele, esse vaivém reflete os ciclos de otimismo e pessimismo do próprio mercado, mais do que a empresa em si.
Longe de SpaceX
A gestora separa esse tipo de aposta das ofertas iniciais, como o esperado IPO da SpaceX (SPCX34), que agitou o mercado há duas semanas. “A SpaceX pode ser extraordinária, mas Microsoft e Mastercard já têm um histórico comprovado de geração de valor ao longo do tempo e é isso que perseguimos”, diz Marinho. Por isso a IP raramente entra em estreias na bolsa, pela dificuldade de análise e pela assimetria de informação. Atualmente, Mastercard, Microsoft e Alphabet (GOGL34), dona do Google, somam cerca de 20% da carteira, que ainda tem outras empresas de tecnologia, como a taiwanesa TSMC (TSMC34), fabricante de chips, e a Meta (M1TA34).
No Brasil, menos oportunidades
Na bolsa brasileira, a queda dos preços abriu menos espaço, porque a IP considera excepcionais menos de 30 empresas locais, e elas precisam estar baratas para entrar na carteira. Ainda assim, a correção recente tornou alguns desses nomes atraentes, e a gestora vem reforçando posições em Itaú Unibanco (ITUB4) e BTG Pactual (BPAC11), que cumprem o critério de gerar valor e superar seu referencial por longos períodos. No setor de serviços públicos, área de que o fundo gosta pela previsibilidade, a maior aposta é a Equatorial (EQTL3).
Com menos oportunidades por aqui, apenas um terço da carteira está no Brasil. Marinho lembra que o quadro era diferente em 2024, quando os preços estavam mais baixos e o fundo investia mais no mercado local do que no exterior. Para ele, é justamente essa flexibilidade que permite ao IP Participações capturar oportunidades nos dois mercados sem ficar totalmente exposto à correção de preços de um deles.
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