Corrupção e astrologia: escândalo e prisão do ex-braço direito de Zelensky na Ucrânia

KIEV, Ucrânia — O principal articulador de poder da Ucrânia caiu em desgraça de tal forma que nem sua própria vidente poderia ter previsto o que aconteceria.

Essa eminência parda, Andriy Yermak, foi até o fim do ano passado a segunda pessoa mais poderosa do país. Amigo de longa data do presidente Volodymyr Zelensky, Yermak passou quase seis anos como chefe de gabinete do líder, acumulando críticas de opositores que o acusavam de usar a invasão russa para concentrar poder em seu cargo não conquistado por eleição e interferir em praticamente todos os aspectos da guerra.

Leia também: Principal negociador de paz da Ucrânia se demite após buscas da polícia anticorrupção

Então, em novembro, Yermak renunciou repentinamente depois que sua casa e seu escritório foram alvo de buscas como parte de uma ampla investigação de corrupção que envolveu vários integrantes do círculo mais próximo de Zelensky.

Zelensky rapidamente se distanciou publicamente de seu confidente mais próximo. E o antes onipresente Yermak proclamou sua inocência, mas praticamente desapareceu da vida pública.

Mas casos de corrupção costumam perseguir presidentes ucranianos. Justamente quando Zelensky começava a recuperar o impulso, com avanços na guerra e renovado apoio dos aliados europeus, Yermak voltou com força ao cenário político, ressuscitando uma dor de cabeça para seu antigo chefe.

No mês passado, Yermak foi preso e colocado na cadeia, acusado de lavar milhões de dólares por meio de um empreendimento imobiliário de luxo nos arredores de Kiev, a capital do país.

Embora Zelensky tenha conseguido resistir até agora à investigação de corrupção e às consequências que se arrastam há meses, os detalhes das acusações contra Yermak, de 54 anos, são estranhos demais para que o público os ignore.

No tribunal, os promotores alegaram que Yermak consultava regularmente uma astróloga para tomar decisões políticas importantes, incluindo nomeações de altos funcionários. Em seu telefone, Yermak teria registrado os dados de contato da mulher sob o nome “Veronika Feng Shui Office”, segundo os promotores.

Indignados, parlamentares responderam apresentando um projeto de lei para proibir serviços ocultistas. Eles chegaram a convocar a vidente, Veronika Anikievych, para depor perante uma comissão parlamentar, embora ela ainda não tenha comparecido.

Anikievych, que também usa o nome Veronika Danylenko, recorreu ao Facebook para defender Yermak, afirmando que o caso era “benéfico para aqueles que querem derrubar Zelensky”.

A investigação de corrupção começou com acusações de desvio em larga escala na estatal ucraniana de energia nuclear e se expandiu para alegações de que Yermak lavou dinheiro por meio do empreendimento imobiliário de luxo.

Ele negou categoricamente tanto as acusações de corrupção quanto as alegações de que consultava uma vidente.

Mas a dura realidade de sua queda política ficou ainda mais evidente quando ele recentemente precisou recorrer a uma campanha de arrecadação coletiva para pagar sua fiança, buscando ajuda de diversos apoiadores. Segundo a imprensa ucraniana, ele levou vários dias para levantar US$ 3,5 milhões junto a cerca de 300 pessoas e entidades.

Yermak agora usa tornozeleira eletrônica e foi proibido de deixar Kiev sem autorização direta dos investigadores. Ainda assim, ele disse ao The New York Times, em uma ligação telefônica na semana passada, que estava a caminho da linha de frente para apoiar as tropas ucranianas.

Ele afirmou não poder responder a outras perguntas por telefone, alegando problemas de conexão. Em vez disso, encaminhou uma série de perguntas por escrito, incluindo uma sobre quem havia autorizado sua viagem à frente de combate, para seu advogado, Ihor Fomin.

Em uma declaração escrita, Fomin afirmou que Yermak está cumprindo as condições impostas antes do julgamento e continua seu trabalho de assistência jurídica a pessoas afetadas pela guerra.

“Qualquer atividade realizada nessa função, incluindo deslocamentos relacionados a esse trabalho, ocorre em conformidade com o marco processual aplicável”, escreveu Fomin.

A situação de Yermak poderia, talvez, ser tratada apenas como um espetáculo surreal e secundário em um país que, ao mesmo tempo, trava uma guerra sangrenta pela própria sobrevivência nacional contra um vizinho armado com armas nucleares.

Mas o caso aumenta a pressão política sobre Zelensky, que só recentemente recuperou estabilidade após um ano turbulento que incluiu não apenas o escândalo de corrupção, mas também fracassos no campo de batalha e pressões vindas de Washington para encerrar a guerra praticamente a qualquer custo.

Embora as agências anticorrupção da Ucrânia não tenham implicado diretamente Zelensky no caso, permanecem dúvidas sobre como ele poderia não ter conhecimento de atos de corrupção envolvendo amigos próximos e assessores.

Para complicar ainda mais a situação, documentos vazados sobre o empreendimento de luxo nos arredores de Kiev indicavam que uma das mansões estava reservada para “Vova”, apelido de Volodymyr, um nome comum na Ucrânia. Ainda não está claro quem é esse Vova.

“O caso Yermak e outras investigações anticorrupção envolvendo pessoas que anteriormente faziam parte do círculo mais próximo do presidente Zelensky estão se tornando uma bomba-relógio”, disse Volodymyr Fesenko, analista político ucraniano. “A única questão é quando ela vai explodir e que danos poderá causar ao presidente.”

A solidariedade em torno de Zelensky é menos uma demonstração de apoio pessoal e mais um reflexo do consenso de que qualquer fissura na unidade nacional fortaleceria a Rússia, afirmou um ex-funcionário ucraniano que falou sob condição de anonimato para discutir questões políticas internas sensíveis.

Os protestos de rua realizados no verão passado em resposta a uma iniciativa de Zelensky para enfraquecer as agências anticorrupção demonstraram a força da sociedade ucraniana, disse o ex-funcionário, acrescentando que os ucranianos não esquecerão o escândalo de corrupção quando as eleições voltarem a ser realizadas.

O mandato de Zelensky expirou tecnicamente em 2024, mas a Constituição da Ucrânia proíbe a realização de eleições enquanto o país estiver sob lei marcial.

Mykola Bielieskov, analista político, afirmou que existe “um exercício de equilíbrio que a maioria dos ucranianos faz mentalmente”.

“As pessoas querem justiça, sem dúvida”, acrescentou, “mas de uma forma que não enfraqueça Zelensky como comandante supremo e principal diplomata em uma guerra existencial”.

Alguns veem aspectos positivos para a Ucrânia na prisão de Yermak. Em vez de desacreditar os esforços do país no combate à corrupção — fundamentais para sua urgente campanha de adesão à União Europeia —, o caso Yermak acabou fortalecendo, em certa medida, a credibilidade da Ucrânia, segundo analistas políticos, parlamentares e diplomatas.

Segundo eles, a investigação demonstrou o compromisso do país com o Estado de Direito e a contínua independência dos órgãos anticorrupção da Ucrânia.

“Isso é algo positivo, porque é impossível imaginar algo parecido acontecendo na Rússia ou em qualquer país autoritário”, disse o parlamentar ucraniano Oleksandr Merezhko sobre a prisão de Yermak.

“Se você não combate a corrupção”, acrescentou Merezhko, integrante do partido de Zelensky e presidente da comissão parlamentar de relações exteriores, “não surgem escândalos como esse. Isso significa que o organismo da sociedade está vivo.”

O momento da prisão de Yermak certamente favoreceu Zelensky. O líder ucraniano tem demonstrado mais confiança à medida que as Forças Armadas do país realizam grandes ataques com drones contra infraestruturas petrolíferas em território russo.

Enquanto a guerra no Irã desviou parte da atenção internacional da Ucrânia, Zelensky voltou aos holofotes ao oferecer a experiência ucraniana aos países do Golfo Pérsico para ajudar na defesa contra ataques iranianos.

Uma eleição na Hungria retirou do poder o primeiro-ministro Viktor Orbán, o adversário mais firme da Ucrânia dentro da União Europeia.

Um inverno devastador, durante o qual grande parte de Kiev sobreviveu sem eletricidade ou aquecimento, deu lugar à primavera.

E, mesmo com a Rússia bombardeando Kyiv nas últimas semanas, matando dezenas de pessoas, a Ucrânia conseguiu manter relativa estabilidade na linha de frente.

A sociedade ucraniana parece estar muito menos focada no caso “Veronika Feng Shui Office” do que na ameaça constante de novos ataques russos contra Kiev e nas crescentes preocupações de que a Ucrânia esteja ficando sem interceptadores para deter os mísseis balísticos russos.

Ainda assim, a história de Yermak está longe de terminar. Ele voltará ao tribunal para novas audiências. Sua vidente ainda poderá comparecer diante dos parlamentares. E continuarão surgindo questionamentos sobre quanto contato, se é que existe algum, ele mantém com seu antigo amigo Zelensky.

c.2026 The New York Times Company

The post Corrupção e astrologia: escândalo e prisão do ex-braço direito de Zelensky na Ucrânia appeared first on InfoMoney.

Comentários