Tarifa de 25% dos EUA entra em vigor e mercado já olha além do impacto inicial

A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras entra em vigor nesta quarta-feira (22), mas, na avaliação de gestores e especialistas de mercado, o principal risco para empresas e investidores não está necessariamente no efeito imediato da medida, e sim em uma eventual escalada da disputa comercial nas próximas semanas.

O consenso entre analistas é que boa parte do impacto inicial já foi incorporada aos preços dos ativos desde o anúncio da medida. O desafio agora será medir a capacidade das empresas afetadas de absorver os custos extras, renegociar contratos, buscar novos mercados e preservar rentabilidade em um ambiente mais adverso.

Para Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, embora o impacto direto sobre os setores atingidos já esteja parcialmente refletido nos preços, ainda há uma série de variáveis que permanecem em aberto.

“A capacidade efetiva das empresas de repassar custos, renegociar contratos, redirecionar exportações e preservar margens e capital de giro ainda não foi completamente precificada”, afirma.

Segundo ele, os primeiros efeitos tendem a surgir justamente nas companhias mais dependentes do mercado americano, por meio da redução de pedidos, revisão de preços, aumento de estoques e maior necessidade de financiamento. No mercado financeiro, a reação inicial deve se concentrar na volatilidade de setores específicos, no câmbio e na percepção de risco, sem necessariamente provocar uma deterioração generalizada dos ativos brasileiros.

André Matos, CEO da MA7 Capital, também acredita que o mercado já absorveu o anúncio da medida, mas não seus efeitos concretos.

“Uma coisa é a expectativa da tarifa; outra é a nota fiscal chegando mais cara na ponta”, diz.

Segundo ele, o impacto deve aparecer primeiro no caixa das exportadoras mais expostas aos Estados Unidos, que terão de escolher entre dividir o custo adicional com os compradores ou sacrificar margens para preservar contratos.

O executivo destaca, porém, que o choque tende a ser mais localizado do que inicialmente se imaginava. Isso porque, segundo cálculos do governo, apenas cerca de 18% das exportações brasileiras aos EUA seriam efetivamente afetadas, já que diversos produtos ficaram de fora graças às exceções concedidas.

Na economia real, os especialistas avaliam que os efeitos não serão imediatos. Contratos em andamento e mercadorias já embarcadas devem continuar seu fluxo normal, fazendo com que o impacto sobre a balança comercial e a atividade econômica seja percebido apenas mais adiante.

Para Cassio Viana de Jesus, diretor de Investimentos e Negócios da Pilar Capital, os dados disponíveis indicam que o mercado absorveu boa parte das expectativas relacionadas ao impacto direto da tarifa, mas não os chamados efeitos de segunda ordem.

Ele cita entre esses riscos a postergação de embarques, renegociação de contratos, compressão de margens e aumento da cautela por parte das empresas em decisões de investimento e contratação.

Na avaliação do executivo, os primeiros reflexos sobre a balança comercial devem surgir entre agosto e setembro. Já os impactos sobre atividade econômica, produção e emprego devem ficar mais evidentes entre o terceiro e o quarto trimestre.

Além dos efeitos corporativos, gestores alertam para potenciais consequências macroeconômicas caso a disputa comercial se agrave.

Fábio Murad, sócio-fundador da Ipê Avaliações, afirma que o tarifaço não representa apenas um risco para exportadoras, mas também aumenta a correlação entre risco político, câmbio, inflação e mercado acionário doméstico.

Na sua avaliação, o primeiro movimento tende a aparecer no real e nas ações das empresas mais diretamente afetadas, enquanto ativos dolarizados podem funcionar como mecanismo de proteção para os investidores.

Murad ressalta, porém, que a busca por proteção internacional não deve ser confundida com uma simples aposta na valorização do dólar. Segundo ele, uma escalada da guerra comercial também poderia afetar empresas americanas, elevar custos nos Estados Unidos e aumentar a volatilidade em diversos mercados simultaneamente.

“O maior risco não é a fotografia de amanhã, mas a sequência de decisões que pode vir depois”, afirma.

Entre os cenários monitorados pelo mercado estão uma eventual ampliação das tarifas americanas, medidas de reciprocidade por parte do Brasil ou a adoção de novas barreiras comerciais envolvendo outros países.

Outra questão é a possibilidade da tarifação adicional de 12,5%, que ampliaria o dano e atingiria setores que hoje se imaginam relativamente protegidos. O governo brasileiro reconhece que os Estados Unidos devem aplicar uma tarifa adicional por falha em proibir e fiscalizar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A principal dúvida, porém, é se uma eventual tarifa aplicada ao fim desse processo será cumulativa à sobretaxa de 25% anunciada pelos americanos.

Leia mais: Mais 12,5% e temor com reciprocidade: tarifaço ainda não foi precificado pelo mercado

Na visão dos especialistas, é justamente esse tipo de escalada que poderia levar investidores a reavaliar riscos de crédito, revisar projeções de investimento, aumentar a seletividade na concessão de financiamentos e pressionar indicadores como o câmbio e o risco-Brasil.

Para Valdir Piran Jr., da Intra Asset, caso as tarifas permaneçam por um período prolongado, medidas emergenciais de apoio discutidas pelo governo podem ajudar a aliviar problemas de capital de giro no curto prazo, mas não substituem a necessidade de adaptação comercial nem eliminam os impactos sobre a competitividade das empresas.

Por isso, a capacidade de preservar liquidez, diversificar receitas e manter baixa alavancagem deverá ser um diferencial importante para companhias exportadoras nos próximos meses.

No curto prazo, o mercado vê a entrada em vigor da tarifa como um evento amplamente conhecido. O que permanece em aberto é até onde poderá avançar o conflito comercial entre Brasil e Estados Unidos e quais serão suas consequências para empresas, investidores e para a economia brasileira.

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