
As vantagens competitivas do Brasil no mercado de terras raras não são novidade. Mas o país pode estar no centro de uma transformação na indústria, com a formação de dois grandes mercados globais: a China de um lado e o restante do mundo do outro. Essa é a avaliação de Ryan Castilloux, fundador e diretor-presidente da Adamas Intelligence, em entrevista ao InfoMoney.
“O que veremos é esse mercado fora da China tornando-se cada vez mais autossuficiente. Mas o desafio que essa parcela enfrenta é justamente o dos longos prazos necessários para ampliar a capacidade. Outro ponto é que precisamos que toda a cadeia de valor seja desenvolvida em relativa harmonia”, afirma Castilloux.
Fundada em 2012, a consultoria canadense atende clientes em seis continentes e produz cerca de 50 relatórios anuais sobre os mercados de terras raras e ímãs.
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A China, que passou décadas desenvolvendo tecnologias de mineração e processamento dessas substâncias, tornou-se a principal fornecedora de terras raras para os países ocidentais. Esses materiais são essenciais para a fabricação de produtos que vão de smartphones a veículos elétricos e ganham cada vez mais relevância em setores como robótica e defesa.
Segundo Castilloux, o mercado de minerais críticos viveu cerca de 15 anos de relativa estabilidade até a pandemia de Covid-19 expor a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimentos. “O mundo despertou para os riscos de uma dependência excessiva de fontes únicas de suprimento para minerais críticos e, francamente, para qualquer tipo de insumo”, diz.
Desde então, diversos países passaram a acelerar esforços para criar cadeias alternativas de fornecimento de minerais críticos, incluindo terras raras. Neste mês, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou investimentos de US$ 2 bilhões em novos projetos do setor, apenas uma parte da ampla estratégia americana para fortalecer sua cadeia de produção.

Aqui, vale uma distinção: minerais críticos formam uma categoria ampla de elementos considerados estratégicos para a economia e a segurança nacional, enquanto as terras raras representam um grupo específico dentro dessa categoria. É justamente nesse segmento que o Brasil ganha destaque.
Atualmente, mais de 100 tipos diferentes de ímãs são utilizados em aplicações industriais ao redor do mundo. Em setores de grande escala, como veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos de defesa e algumas aplicações robóticas, costuma ser necessária a adição de pequenas quantidades das chamadas terras raras pesadas, que permitem o funcionamento dos ímãs em temperaturas elevadas.
“Buscamos certos tipos de depósitos para a mineração de terras raras onde a barreira operacional para a extração e o processamento do material seja baixa. Eles são tipicamente chamados de depósitos de argila de adsorção iônica”, explica Castilloux.
Na Ásia, esse tipo de depósito é encontrado em países como China, Mianmar e Laos. Fora do continente, o Brasil é apontado pelo executivo como provavelmente o principal polo global desse tipo de recurso.
O acesso às terras raras pesadas é um dos principais gargalos para o desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos fora da China. O outro está na etapa de produção dos metais, quando os óxidos obtidos nas plantas de processamento são convertidos nos insumos necessários para a fabricação de ligas magnéticas que, posteriormente, dão origem aos ímãs.
Por enquanto, apenas a China domina integralmente essa cadeia produtiva, e dificilmente outro país conseguirá reproduzi-la em sua totalidade nos próximos anos.
“Estamos em um momento de virada rumo a um maior desenvolvimento, realizado de forma rápida, responsável e competitiva. Observamos um rápido ganho de impulso nos EUA. No entanto, trata-se de um desafio de longo prazo”, afirma.
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Na avaliação de Castilloux, o Brasil reúne condições para avançar nesse mercado. Muitas empresas enxergam a possibilidade de ingressar relativamente rápido no setor, em projetos com horizonte de três a quatro anos e investimentos iniciais mais modestos, reduzindo os riscos do negócio. Hoje, a exploração de um depósito de argila de adsorção iônica exige aportes de algumas centenas de milhões de dólares.
“Em um horizonte de tempo grande o suficiente, de 10 anos até 2035, é realista dizer que com políticas públicas certas, o suporte adequado e ambiente regulatório, o Brasil avance na cadeia de valor, desenvolva capacidades de processamento e estabeleça uma indústria de imãs”, conclui o executivo.
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