
A abstenção não favorece automaticamente a direita nem prejudica sempre a esquerda. O efeito depende de quem deixa de votar em cada eleição. No Brasil, porém, existe uma combinação que costuma aumentar a preocupação de campanhas de esquerda: seus melhores resultados aparecem com frequência entre eleitores de menor renda e escolaridade, justamente segmentos que historicamente registram menor participação eleitoral.
Em 2026, essa diferença aparece de forma clara na disputa presidencial. No Datafolha divulgado nesta quinta-feira (24), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 49% entre os eleitores com ensino fundamental, contra 29% de Flávio Bolsonaro (PL). Entre os mais escolarizados, a disputa é mais equilibrada, com vantagem numérica de Flávio no ensino médio e superior.
Pesquisas anteriores do instituto mostram a mesma divisão por renda. Na rodada de 14 de setembro, Lula tinha 47% entre famílias com renda de até dois salários mínimos, ante 27% de Flávio. Acima de dois salários, o candidato do PL aparecia à frente.
É essa composição do eleitorado que transforma comparecimento em variável importante para a esquerda.
Quem tem menor escolaridade falta mais
Estudos reunidos pela Justiça Eleitoral mostram que a abstenção é socialmente desigual. Análises sobre participação eleitoral identificam taxas mais altas de ausência entre pessoas com menor escolaridade, enquanto eleitores com formação mais elevada tendem a comparecer mais.
Pesquisas sobre comportamento político também relacionam maior escolaridade a níveis mais altos de informação, interesse e participação política.
Essa diferença produz uma consequência prática. Se uma candidatura depende proporcionalmente mais dos votos de grupos que apresentam maior risco de não comparecimento, precisa mobilizar uma parcela maior de sua própria base apenas para preservar o resultado apontado nas pesquisas.
Uma pesquisa de intenção de voto mede a preferência de eleitores aptos. O resultado da urna depende dos que efetivamente aparecem para votar.
Renda e escolaridade se cruzam
Renda e escolaridade não são variáveis idênticas, mas costumam estar relacionadas. Em 2026, Lula concentra parte importante de sua vantagem entre os mais pobres. Na pesquisa Datafolha de 21 de setembro, o presidente tinha 46% entre quem recebe até dois salários mínimos, ante 29% de Flávio. Entre beneficiários do Bolsa Família ou moradores de domicílios com alguém atendido pelo programa, o placar era de 53% a 28%.
Flávio apresenta desempenho melhor entre as faixas de renda superiores, que também tendem a ter maior escolaridade e participação política.
Isso ajuda a explicar por que campanhas petistas tradicionalmente dão atenção especial à mobilização de eleitores de baixa renda no dia da votação. Um aumento da abstenção concentrado nesse segmento pode retirar proporcionalmente mais votos de Lula do que de um adversário que tenha maior apoio nas classes de renda mais alta.
Leia mais:
- Título de eleitor: prazo para tirar, como consultar e regularizar
- Quais são os cargos em disputa nas eleições 2026?
Por que o tema pesa mais em 2026
A preocupação ganha importância adicional porque Lula e Flávio chegam à reta final separados por margens pequenas nas pesquisas nacionais.
Ao mesmo tempo, a base de Lula continua mais concentrada justamente entre os segmentos de baixa renda e menor escolaridade. Flávio registra desempenho superior entre eleitores de maior renda e aparece competitivo entre os mais escolarizados.
Para a campanha petista, portanto, mobilização significa proteger uma vantagem que já existe entre seus grupos mais favoráveis. Quanto maior a ausência nesses segmentos, menor pode ser a tradução das intenções de voto em votos efetivos.
The post Quem falta às urnas? Por que a abstenção virou risco maior para Lula appeared first on InfoMoney.

Comentários
Postar um comentário