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Cada vez mais os investidores em caderneta de poupança estão percebendo que o ganho da aplicação é um dos menores do mercado de renda fixa e estão trocando o investimento por outros mais rentáveis.
No ano passado, as cadernetas registraram resgates líquidos de R$ 85,568 bilhões, o quinto ano seguido de saídas e um dos maiores da história, de acordo com o Banco Central. Nesses cinco anos, as cadernetas perderam R$ 327,59 bilhões, terminando 2025 com um patrimônio de R$ 1,022 trilhão.
| Captação líquida da poupança | |
| Ano | R$/milhões |
| 2015 | -53.567,9 |
| 2016 | -40.701,7 |
| 2017 | 17.126,7 |
| 2018 | 38.260,4 |
| 2019 | 13.327,1 |
| 2020 | 166.309,9 |
| 2021 | -35.496,6 |
| 2022 | -103.237,2 |
| 2023 | -87.819,1 |
| 2024 | -15.466,8 |
| 2025 | -85.568,1 |
A explicação para esse emagrecimento das cadernetas está na rentabilidade, geralmente a mais baixa entre as opções de renda fixa. Em cinco anos, as cadernetas acumularam um rendimento de 43,47%, ante 68,16% do CDI, ou 57,94% líquidos, considerando uma alíquota de imposto de 15%.
Em uma aplicação de R$ 10 mil, o ganho da poupança nesses cinco anos seria de R$ 4.347,00, enquanto o do CDI, de R$ 5.794,00 líquidos, uma diferença de R$ 1.447,00 a mais no bolso do investidor. Em dez anos, as cadernetas acumularam rendimento de 98,61%, enquanto o CDI rendeu 144,19%, ou 122,56% líquidos de imposto.
Assim, os mesmos R$ 10 mil aplicados por dez anos renderiam R$ 2.395,00 mais no CDI que na poupança, ou 23,95%.
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A perda de espaço das cadernetas é resultado de uma combinação estrutural de fatores, e não de uma mudança súbita de apetite ao risco, afirma Gustavo Assis, presidente da Asset Bank. Com a Selic elevada, o investidor passou a perceber que a poupança oferece uma remuneração estruturalmente baixa, incapaz de acompanhar o ciclo de juros e a inflação, enquanto outras opções de renda fixa entregam retorno maior sem exigir uma mudança relevante de perfil.
Segundo ele, Tesouro Selic, CDBs com liquidez diária, LCIs e LCAs isentas de imposto de renda passaram a cumprir o mesmo papel de preservação de capital e liquidez, mas com remuneração mais alinhada ao ambiente macroeconômico. A digitalização do mercado e a maior transparência das plataformas de investimentos facilitaram esse processo ao reduzirem o custo de acesso e ampliarem a capacidade de comparação, enfraquecendo o papel da poupança como aplicação automática.
Esse movimento fica claro nos dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais dos últimos dois anos, de janeiro de 2024 a novembro de 2025. O número de contas de caderneta de poupança no período cresceu 12%, para 85,6 milhões, mas o saldo total investido avançou apenas 3,88%, para R$ 947,5 bilhões.
No mesmo período, as contas de investidores em CDBs cresceram 33,9%, para 67,2 milhões, e o volume financeiro aumentou 42,7%, para R$ 1,251 trilhão. As contas de LCAs cresceram 23,66%, para 2,3 milhões, e seus depósitos aumentaram 24,7%, para R$ 543,741 milhões. As contas de LCI aumentaram menos, 5,5%, para 2,65 milhões, mas o volume financeiro cresceu 29,9% e atingiu R$ 431,2 bilhões.
Mas o maior destaque foram as debêntures incentivadas, isentas de imposto, que somaram 428 mil contas em novembro passado, um crescimento de 24,17% desde janeiro de 2024, enquanto o volume investido aumentou 43,7%, para R$ 97,981 bilhões.
O que vemos hoje é uma realocação racional de capital em resposta ao novo preço do dinheiro, diz Edgar Araújo, presidente da Azumi Investimentos. Com a taxa de juros em patamar elevado por um período prolongado, o investidor naturalmente buscou alternativas dentro da própria renda fixa que preservem segurança, mas entreguem retorno superior.
Esse fluxo migrou principalmente para CDBs, LCIs e LCAs impulsionados pela liquidez diária, proteção do Fundo Garantidor de Crédito e pela isenção de imposto em alguns casos, além de debêntures incentivadas e, de forma crescente, fundos estruturados como os FIDCs, que permitem acesso a carteiras de crédito diversificadas.
Ao mesmo tempo, diz Araújo, essa migração exige mais disciplina, como mostrou o caso do Banco Master recentemente. “É fundamental avaliar risco de crédito do emissor, garantias, estrutura jurídica, liquidez e prazo dos papéis, porque maior rentabilidade não vem sem maior responsabilidade na análise”, observa.
Rentabilidade é a principal razão para a poupança estar perdendo aplicações, diz Isabela Perez, head de RI da Rio Bravo Investimentos. “Principalmente em um ambiente com a Selic tão alta, outros produtos ficam muito mais atrativos, como Tesouro Direto, CDBs, fundos de renda fixa, mesmo que sejam tributados, mas ainda com perfil conservador”, diz.
Além disso, a popularização de plataformas digitais e open finance permitem essa democratização de acesso e comparabilidade. “As facilidades de acesso, de entendimento e de acompanhamento da poupança sempre foram grandes atrativos, mas agora, por que deixar o dinheiro em um rendimento tão inferior se hoje tenho a mesma facilidade, em dois cliques consigo ter uma remuneração que segue o CDI em várias plataformas?”, diz Isabela.
Ela cita dados da Anbima, que indicam que a segurança (24%) ainda é o principal fator que leva os investidores a escolherem a poupança, seguida da facilidade de aplicar (20%) e da confiança na marca (19%). “Hoje esses atributos já são observados em outras opções de investimento que não existiam há alguns anos”, afirma.
Embora seja um investimento com baixo rendimento, especialistas avaliam que a poupança ainda pode ser “útil” para perfis que priorizam simplicidade absoluta e liquidez imediata, especialmente para pequenos valores ou reserva transacional. Contudo, a poupança deixou de ser o instrumento central de quem busca expandir ou mesmo preservar patrimônio em um mercado financeiro mais maduro e competitivo, afirma Araújo, da Azumi Investimentos.
Para Assis, da Asset Bank, a poupança ainda pode fazer sentido em situações muito específicas, como para quem possui pouco patrimônio, precisa de liquidez imediata e simplicidade absoluta. Fora desse contexto, ela perdeu competitividade, afirma Assis. “O investidor conservador mais informado percebeu que é possível manter previsibilidade e proteção de capital utilizando instrumentos que acompanham melhor o ciclo econômico”.
Isabela, da Rio Bravo, vê na caderneta o aspecto positivo da disciplina: pela facilidade, algumas pessoas conseguem pegar uma parte do orçamento de forma recorrente e guardar na poupança. “De toda forma, mesmo esse perfil conservador consegue uma aplicação semelhante em termos de segurança e facilidade, e rendendo muito mais”, diz.
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